Psicanálise e Arte
- Ludmila Andrade

- 24 de mai.
- 3 min de leitura
O Estranho e os Laços Sociais
Freud entre Na Mira do Júri, The Office e O Show de Truman

Dando continuidade às reflexões sobre Psicanálise e Cinema, desta vez ampliamos o olhar para as séries e para as formas contemporâneas de encenação da realidade.
Na Mira do Júri (Jury Duty, 2023–) é uma série de comédia em formato de falso documentário (mockumentary), criada por Lee Eisenberg e Gene Stupnitsky, roteiristas de The Office. Em sua primeira temporada, acompanha Ronald Gladden, um homem comum que acredita estar participando de um julgamento real nos Estados Unidos. O que ele não sabe é que o caso é totalmente fictício: juiz, advogados, testemunhas e jurados são atores, e ele é a única pessoa que desconhece a encenação. A segunda temporada, Retiro Corporativo (2026), também está disponível em streaming.
The Office (2005–2013) é uma aclamada série de comédia em formato de falso documentário (mockumentary) que retrata o cotidiano hilário — e frequentemente constrangedor — dos funcionários da filial de Scranton, na Pensilvânia, da empresa fictícia Dunder Mifflin. O elenco reúne nomes como Steve Carell e John Krasinski, entre outros.
Já O Show de Truman (The Truman Show -1998), dirigido por Peter Weir e roteirizado por Andrew Niccol, acompanha Truman Burbank (Jim Carrey), um homem que descobre que sua vida inteira é transmitida como um programa de televisão. Desde o nascimento, ele vive em uma gigantesca cidade-cenário, cercado por familiares e amigos que são, na verdade, atores. Quando pequenas falhas começam a surgir nesse universo perfeito, Truman passa a questionar tudo aquilo que considerava real.
À primeira vista, essas obras parecem ter pouco em comum além das câmeras. No entanto, todas exploram um questionamento inquietante: o que acontece quando a realidade começa a apresentar rachaduras?
Em O Show de Truman, um holofote cai do céu em plena manhã ensolarada. Em The Office, o cotidiano corporativo é atravessado por silêncios constrangedores, comportamentos excêntricos e situações que desafiam o bom senso. Em Na Mira do Júri, coincidências improváveis e acontecimentos cada vez mais absurdos colocam à prova a credibilidade do mundo ao redor do protagonista.
Como lidar com o estranho, aquilo que deveria ter permanecido oculto, mas veio à tona, gerando um desconforto assustador e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar?
Em Das Unheimliche (O Estranho, 1919), Freud descreve justamente essa experiência. Não se trata do medo diante do totalmente desconhecido, mas da inquietação provocada quando algo aparentemente familiar revela uma face perturbadora. O estranho emerge quando aquilo que parecia seguro deixa escapar suas fissuras.
Nas três obras, o estranho é aquele momento em que a realidade simulada falha e o sujeito percebe que há algo de muito errado — e artificial — em seu cotidiano.
Talvez o aspecto mais interessante de Na Mira do Júri seja a maneira como Ronald Gladden responde a essas fissuras. Diante de acontecimentos improváveis, ele raramente conclui que está sendo enganado. Em vez disso, procura compreender, justificar e acolher o comportamento das pessoas ao seu redor.
O humor da série nasce do absurdo e da vergonha alheia, mas também revela algo importante sobre os laços sociais. Nossa primeira reação diante do estranho nem sempre é romper com a realidade compartilhada. Ao contrário, costumamos buscar explicações que preservem os vínculos e mantenham o mundo fazendo sentido.
Enquanto o espectador espera que a farsa seja descoberta a qualquer momento, acompanha alguém que insiste em confiar nos outros e em encontrar coerência naquilo que presencia. Talvez seja justamente essa aposta na boa-fé alheia — e na realidade construída em comum — que torna a série tão divertida e, ao mesmo tempo, tão fascinante.
Entre o reality show involuntário de Truman, os olhares para a câmera em The Office e o experimento social de Na Mira do Júri, permanece uma questão bastante atual: quando a realidade vacila, continuamos acreditando nela ou buscamos compreender aqueles que a compartilham conosco?
Observamos, assim, que os laços sociais se sustentam justamente nesse delicado equilíbrio entre estranhamento e confiança. Afinal, diante das pequenas rachaduras do cotidiano, raramente concluímos que tudo é uma encenação. Preferimos procurar sentidos, construir explicações e continuar apostando que compartilhamos com os outros um mesmo mundo.


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